Enxaqueca em crianças!

A enxaqueca, doença que atinge 1 bilhão de pessoas no mundo, é a 6ª doença crônica mais incapacitante, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). E não é um mal apenas de adultos. Entre as crianças, a prevalência é de 3% a 10% da população infantil mundial, segundo o neuropediatra Marco Antônio Arruda, do Instituto Glia (SP), e pode se manifestar a partir dos 5 anos. Se as dores, de tão fortes, provocam até vômitos em gente grande, imagine o que essa condição pode causar nos pequenos. Mas não para por aí. “Crianças e adolescentes com enxaqueca têm um risco 2,5 vezes maior de apresentar dificuldades socioemocionais, depressão e ansiedade; 1,5 vez maior de baixo desempenho escolar e 1,3 vez maior de perder aula, quando comparados a outros sem o problema”, revela.

Ele se refere a uma pesquisa que realizou com pais e professores de aproximadamente 5 mil crianças com idades entre 5 e 12 anos. Publicado no Journal of Attention Disorders, além dessas descobertas, o estudo fez uma ligação surpreendente: crianças com enxaqueca têm quatro vezes mais chances de apresentar também o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). “Quando certas doenças andam juntas, como colesterol alto e infarto, por exemplo, chamamos isso de comorbidade. Sabendo desse risco, o médico deve pesquisar em crianças com enxaqueca a possibilidade de TDAH e naquelas com TDAH a possibilidade de enxaqueca, para tratá-los de forma integral”, diz.

 

Além da dor

 

Mais do que dores de cabeça recorrentes – caracterizadas por dor latejante, normalmente acima dos olhos ou no meio da cabeça –, a enxaqueca pode apresentar outros sintomas, como náuseas, vômitos, aversão à luz (fotofobia), barulho (fonofobia) e odores (osmofobia). Em alguns casos, a crise é precedida ou acompanhada de um fenômeno neurológico chamado aura – a pessoa vê estrelinhas, enxerga em dobro ou tem metade do campo visual apagado, além de apresentar vertigem, dificuldade para falar, fraqueza e/ou formigamento em um dos lados do corpo.

É assim, com a aura, que se iniciam as enxaquecas de Melissa Rodrigues Bragança, 12, cujas crises começaram aos 5 anos. Na sequência, vem a dor de cabeça. “Nesse intervalo, ela apresenta vômito, dormência no rosto e nos membros superiores, dificuldade na fala e no raciocínio, assim como sensibilidade à luz e ao som”, conta a pedagoga Renata Bragança, 41, mãe da menina.

Apesar dos sintomas intensos, as crises de Melissa não têm interferido muito no seu dia a dia nem em seu rendimento escolar. “Já teve alguns episódios durante a aula e, por conta disso, solicitei à direção para que eu seja avisada o mais rápido possível, para medicá-la o quanto antes. Às vezes, o remédio oral resolve, outras o Liftcaps funciona também, porém, em algumas situações, temos de levá-la ao pronto-socorro para que ele seja aplicado diretamente na veia”, relata a mãe.

Os cuidados de Renata têm razão de ser. Uma das questões que mais preocupam os especialistas é que muitas famílias negligenciam os sintomas, acreditando que a criança está fazendo birra para faltar às aulas ou “escapar” de algo. Foi assim com a professora de dança Caroline Amendola, 37, mãe de Yasmin, hoje com 11 anos. As primeiras crises da menina aconteceram quando ela tinha apenas 3 anos, mas os pais não deram tanta importância. “A gente achava que era uma desculpa para evitar a escola. Só começamos a desconfiar de algo mais grave quando ela já tinha 7 anos e as crises tornaram-se intensas e frequentes. Percebemos que havia algo errado porque ela deixava de realizar atividades de que as crianças gostam, como ir à piscina, a uma festa de aniversário, ao cinema...”, lembra Caroline.

Esse caráter limitante é um dos primeiros sinais a servir de alerta para os pais. “Quando está com dor, Yasmin chega a vomitar. A escola me liga para eu buscá-la. Por causa disso, minha filha perde muitas aulas e tem de fazer trabalhos escolares em casa para compensar as faltas. Mas sabemos que a saúde vem em primeiro lugar”, lamenta a mãe. “Emocionalmente, também é desgastante. Ela chora e se pergunta ‘o que eu fiz para sentir tanta dor?’”, completa.

A resposta para o questionamento de Yasmin pode estar no histórico médico da família: Caroline também sofre desse mal. “Existe uma predisposição genética para a doença, o que a torna mais recorrente dentro do mesmo grupo familiar. Mas a epigenética [influência da alimentação e do estilo de vida na expressão dos genes] também está relacionada ao problema”, explica o neuropediatra Antonio Carlos de Farias, do Hospital Pequeno Príncipe (PR). Ou seja, segundo o especialista, os hábitos também favorecem o surgimento da enxaqueca, da qualidade do sono ao cardápio do dia a dia.

 

Enxaqueca em três versões

 

Os tipos mais comuns da doença são sem aura e com aura. Mas existem também formas mais raras. Conheça:

 

Retiniana
O processo de constrição dos vasos ocorre na retina, provocando cegueira transitória de um olho e dor, que costumam passar em algumas horas.

 

Hemiplégica
O paciente fica com um lado do corpo mais fraco ou mesmo sem conseguir se movimentar por um tempo até que a crise cesse.

 

Abdominal
Prevalente em crianças, caracteriza-se por crises de dor abdominal, muitas vezes com náuseas, vômitos, foto e fonofobia.

 

Múltiplas causas

 

A questão é que os gatilhos variam muito de uma pessoa para outra. Entre os alimentos que podem desencadear uma crise estão chocolate, molhos, condimentos, queijos e seus derivados, frutas cítricas e comidas gordurosas – em geral, quanto mais natural a alimentação do paciente, melhor.

Quem tem predisposição à doença também precisa ter uma rotina de sono regrada: dormir ao menos oito horas por noite, no mesmo horário. Isso porque a melatonina, hormônio produzido pelo organismo que regula o sono, está relacionada aos níveis de serotonina. Essa última é um neurotransmissor que atua no cérebro e que, se desequilibrado, leva a uma série de problemas, entre eles a enxaqueca.

O caso de Yasmin, porém, não tem nenhuma relação com alimentação ou falta de sono. As crises da menina, conforme relata a família, são desencadeadas por situações de estresse e ansiedade. Na semana de provas, por exemplo, os pais já ficam de alerta. E, muitas vezes, basta uma briga com uma colega. “O fator emocional influencia, tanto em crianças e adolescentes quanto em adultos. Mas é um desencadeador, não o motivo. A causa da enxaqueca é neuroquímica, isto é, uma cascata de eventos químicos cerebrais que provocam a aura e a dor. O controle desses fatores e a capacitação do paciente para regular melhor suas emoções fazem parte do tratamento”, explica o neuropediatra Arruda.

Por isso, em breve, Yasmim vai começar a fazer acompanhamento com um psicólogo para aprender a lidar com esses sentimentos e, assim, controlar futuras crises. A mãe conta, ainda, que essa relação entre estado emocional e enxaqueca foi descoberta quando a família passou a anotar em um diário a frequência e a duração das crises, assim como os alimentos consumidos nos dias anteriores, enfim, qualquer questão que pudesse servir de gatilho.

Essa atenção dos pais em relação às causas, vale destacar, é fundamental para o sucesso do tratamento. “Em primeiro lugar, é importante escutar e legitimar a dor de seu filho. A dor física poderá ser controlada por meio dos medicamentos receitados. Já as de fundo emocional, que também podem se manifestar fisicamente, só poderão ser cuidadas se os adultos souberem ouvir a criança. A enxaqueca pode, ainda, estar relacionada a outras dificuldades emocionais, e uma coisa potencializar a outra. Em função disso, o tratamento envolve, necessariamente, atender a todos esses fatores”, afirma a psicóloga Adriana Elisabeth Dias, coordenadora do Colégio Oswald de Andrade (SP). A educadora alerta também sobre a importância da parceria entre pais e professores para que o aluno consiga superar as dificuldades impostas pela doença na vida escolar – sem danos às notas ou à autoestima.

 

Com ou sem remédio

 

O diagnóstico é essencialmente clínico, realizado no consultório do neuropediatra. “O principal fator é a frequência, ou seja, as crises têm de ser caracterizadas como recorrentes, com mais de cinco delas de caráter incapacitante. Outro dado a ser levado em conta é a duração do intervalo livre de sintomas”, explica o neuropediatra Farias. Mas como tudo isso pode variar de criança para criança – algumas podem ficar semanas sem enxaqueca, enquanto outras, meses –, os pais têm de ficar de olho.

Até porque o diagnóstico pode demorar um tempo, como aconteceu com João Gabriel, 7. O menino começou a apresentar cefaleias (dores de cabeça) há dois anos. A princípio, a família achou que o problema estava relacionado à sinusite (inflamação dos seios nasais) do garoto, porém as dores continuaram mesmo após uma cirurgia na região no ano passado. “Agora, fazemos acompanhamento com um neurologista. Além de exames de sangue e de imagem, ele solicitou que anotássemos em um diário a frequência, intesidade e duração das crises, assim como a alimentação do meu filho”, conta a mãe, a enfermeira Maria Cristina Pereira, 29.

Uma vez diagnosticada, existem dois tipos de tratamento da doença: com ou sem medicamentos. Na primeira situação, a medicação (triptanos, anti-inflamatórios e analgésicos) pode ser usada para tratar o paciente durante as crises, com o objetivo de cessar a dor e os sintomas que a acompanham. “Só que o uso de analgésicos nem sempre é o mais indicado, uma vez que eles podem causar no organismo uma certa resistência e parar de fazer efeito. O ideal, sendo assim, é buscar um meio de evitar que as dores ocorram”, diz Farias.

 

Aí entram os tratamentos para prevenir novas crises. Neste caso, os remédios (topiramato, divalproato, betabloqueadores e flunarizina) devem ser tomados diariamente e, com o tempo, tendem a reduzir a frequência, a intensidade e a duração das crises.

Entre as novidades, está uma pesquisa sobre um tratamento minimamente invasivo que traz alívio em poucos minutos. Trata-se da introdução de um cateter em cada narina da criança para administrar um anestésico local que bloqueia o gânglio esfenopalatino (feixe nervoso localizado no nariz) associado à enxaqueca. Realizado em pacientes entre 7 e 18 anos no Phoenix Children’s Hospital (EUA), o experimento levou a uma redução nos níveis da dor, por meses.

Outro estudo recente mostrou que a toxina botulínica, aquela usada para tirar rugas, também pode aliviar a enxaqueca. O procedimento já foi testado em adultos antes, mas não nos pequenos. Os pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine (EUA) injetaram a substância na região da cabeça e do pescoço em crianças e adolescentes de 8 a 17 anos com enxaqueca crônica, a cada 12 semanas, durante um período de cinco anos. Também houve uma redução na frequência, duração e intensidade das crises. Embora ainda em testes, é possível que esses tratamentos influenciem de maneira positiva o jeito de tratar a enxaqueca no futuro. 

 

Dia a dia

 

Já o tratamento não medicamentoso inclui a educação do paciente sobre a enxaqueca, para que ele aprenda, principalmente, a identificar e evitar os fatores que desencadeiam o problema no caso dele. Se após notar que determinado alimento causa o desconforto, a dica é simples: ele tem de ser retirado do cardápio ou substituído. “Fazer atividade física regular é outro fator que pode ajudar o tratamento preventivo, pois os exercícios aumentam a produção das encefalinas, neurotransmissores que funcionam como ‘analgésicos’ naturais produzidos pelo nosso cérebro”, explica o neuropediatra Arruda. Além disso, os especialistas indicam também métodos terapêuticos, como a psicoterapia e o biofeedback (técnica que, com o auxílio de eletrodos, ensina o paciente a relaxar os músculos tensionados e, assim, controlar a dor).

A família de Melissa, do início da reportagem, optou por unir tudo isso – o que tem dado certo. “Como nunca sabemos quando ela terá a próxima crise, já que isso pode acontecer a cada dois meses ou até duas vezes no mesmo mês, tomamos algumas medidas preventivas, como manter uma alimentação saudável, não ficar longos períodos sem se alimentar, ter oito horas de sono diárias e com horários regulares, além de praticar exercícios físicos”, conta a mãe, Renata. A menina não tem restrições alimentares por causa da doença, mas faz terapia e tratamento medicamentoso para amenizar a ansiedade.

 

Tem cura?

 

Segundo estudos que acompanharam pacientes por mais de 30 anos, 40% das crianças com enxaqueca serão adultos com a doença. “Mas a boa notícia é que, quando o diagnóstico é feito na infância e o tratamento e medidas de prevenção instituídas nessa época, a chance de cura aumenta”, completa Arruda, sobretudo nos meninos. Nas meninas, com o aparecimento da primeira menstruação, há uma tendência de reaparecimento ou mesmo piora da doença ao longo da vida adulta. Tudo por causa das influências hormonais no processo neuroquímico da enxaqueca – tanto que, a partir da menopausa, cerca de 90% das mulheres com o problema apresentam remissão das crises espontaneamente.

Mesmo que o seu filho não seja curado na infância, há esperança. Com as medidas profiláticas e os tratamentos disponíveis, é possível melhorar a qualidade de vida dele desde agora. Na dúvida, pais e pediatras aconselham: não demore para buscar ajuda.

Compartilhe em suas redes sociais:

MAIS SOBRE A VITA FAIR